Academia Brasileira de Futebol

Ricardo Trade

Ricardo Trade, é quem faz a coisa andar”.

Referia-se ao executivo mineiro, sob cuja alçada está tudo relacionado à tecnologia de informação, áreas de competição, transporte de delegações, centros de mídia, serviços, logística e relacionamento com as cidades-sedes. Ele é diretor executivo de operações do comitê, uma função para um sujeito pragmático ao extremo.

— Eu me considero um homem de missão. Me dê uma e vou tentar cumprir — diz, em sua sala, a da presidência da sede do COL, na Barra.

Entre protagonistas de sobrenomes famosos como Teixeira, Blatter, Valcke, Roussef e Rebelo, Trade é um ilustre desconhecido. Para os cerca de 80 funcionários do comitê, 50 dos quais se reportam diretamente a ele, é o Baka, assim mesmo, com cá, abreviatura de Bacalhau. Formado em administração de empresas pela PUC-BH, cruzeirense roxo e rubro-negro por herança do pai capixaba, tem motivos para ser um sujeito estressado até o último fio de cabelo, um workaholic, tantos são os pepinos que lhe caem no colo diariamente. Mas não é.

— Há personalidades difíceis aqui, mas gente de caráter, competente — elogia, enaltecendo sua equipe. — Sei botar o pé em cima da mesa de vez em quando, sem remorsos. Tenho uma virtude: eu delego.

Goleiro e preparador-físico

Sob o terno bem cortado do executivo, reside um corpo de atleta. Ou melhor, aos 54 anos, restou-lhe a alma. O esporte de competição faz parte de sua vida desde os 11 anos, quando começou a jogar handebol no Ginástico, de Belo Horizonte. Era goleiro. Foram oito anos de seleção brasileira, outros tantos como técnico e árbitro, até se formar em educação física. Graduado, trabalhou como preparador em várias equipes de ponta do vôlei nacional (Transbrasil, Colgate, Sadia) na época em que este ensaiava os primeiros passos para se tornar o melhor do mundo. É notório seu orgulho ao falar do convívio com a geração de prata.

Nas Olimpíadas de Seul, em 1988, foi preparador-físico da seleção feminina comandada por Bebeto de Freitas e que tinha Bernardinho como auxiliar. E, no Mundial de 90, na de Inaldo Manta. Foi aí que Carlos Arthur Nuzman sugeriu trocar a quadra pelo escritório.

— Estava cansado de trabalhar com o alto nível e ter de ganhar sempre — lembra.

Uma das primeiras realizações, sempre na área de operações, foram os campeonatos de futebol de praia, como executivo da Koch Tavares. Com o suporte de Júnior, Zico e José Roberto Wright, Trade ajudou a transformar um lazer em produto vendável. Vôlei de praia, tênis e futebol soçaite também estavam no cardápio. Foram mais de 100 eventos.

A experiência o encorajou a criar o próprio negócio. A MKT Sports cuidou por quatro anos da Liga Futsal, da organização técnica à venda de direitos de TV. Deu pra ser feliz enquanto a empresa durou. Nuzman, então, reapareceu, com nova proposta tentadora: ser gerente geral de serviços do Pan 2007. Seis meses antes do início dos jogos, foi promovido a um dos diretores de operações do Pan. Curtiu.

O evento acabou e a próxima missão estava sobre a mesa: organizar a visita dos membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) que inspecionariam o Rio como cidade-candidata aos Jogos de 2016. Lembra-se de que, num só dia, montou nove coletivas. Não poderia ser outra pessoa senão ele a cuidar da viagem a Copenhague, onde o Brasil foi oficializado sede. Planejou o jantar das mulheres dos delegados com o escritor Paulo Coelho como discutiu detalhes do esquema de segurança de Lula com staff presidencial. A ida, como observador, aos Jogos da Comunidade Britânica, em Melbourne (2006), e às Olimpíadas de Pequim (2008), o tornaram um craque na arte de organizar.

Em 2010, outro peixe grande do esporte cruzou seu caminho. O convite de Ricardo Teixeira para ser executivo do COL foi aceito tão logo o dirigente revelou sua intenção a Nuzman, num telefonema do qual Trade foi testemunha.

— A primeira coisa que eu disse ao Ricardo foi que, sozinho, ninguém faz nada. Ele me deu total autonomia para montar minha equipe — recorda.

Hoje, abaixo do presidente José Maria Marin na hierarquia do COL estão Trade, a filha de Teixeira, Joana Havelange, que cuida de planejamento, marketing e suporte a operações, e Rodrigo Paiva, diretor de comunicação.

Ricardo Trade acumula milhas no seu cartão fidelidade diamante. Na última segunda-feira, estava em Porto Alegre, onde participou da assinatura do contrato das obras no Beira-Rio. Saiu de lá exultante e recebeu a notícia de que os operários de Natal fariam greve. Na terça-feira foi a Goiânia, voltou ao Rio, e amanhã embarca para Zurique.

Aeroportos preocupam

Sua mesa é repositório de uma pilha inesgotável de papéis, entre ofícios, relatórios com o monitoramento mensal das obras de toda ordem nas 12 cidades-sedes, e outros, confessamente ainda não lidos, da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), sobre riscos da Copa e como gerenciá-los.

— O Brasil vai entregar uma Copa muito legal e uma Copa das Confederações melhor ainda. Se eu não acreditar no que está aqui (aponta os relatórios)… — afirma, bem resolvido em relação às críticas sobre atrasos. — A mídia e o povo estão fazendo o papel que lhes cabe, que é cobrar. Mas a roda está girando.

Em maio, seis gerentes do COL seguirão para Rio, Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília, Recife e Salvador. As quatro primeiras são sedes da Copa das Confederações. Se oferecerem o conforto requerido pela Fifa e apresentarem um cronograma de obras factível, no dia 1 de junho as duas últimas serão confirmadas, atesta. Até lá, a vida de Ricardo Trade se manterá inalterada.

Ele continuará em busca de um QG para os árbitros na Copa, provavelmente no Rio, cuidando da seleção de três campos de treino em 24 dos 27 estados do país e, eventualmente, recebendo amigos para um churrasco. A preocupação sutil com os aeroportos só ajuda a reforçar seu pragmatismo:

— Vou ter uma operação montada para atender do jeito que está ou melhorado.

Sorrir, o segredo

Leitor voraz, atualmente seu livro de cabeceira é “Napoleão, CEO. Seis princípios para guiar e inspirar líderes modernos”, uma síntese dos pensamentos do general e como usava conceitos de gestão no comando do exército. Parece até que Baka está se preparando para a guerra, mas o desafio de realizar a Copa das Confederações e a Copa do Mundo não lhe fere a carne.

Casado, pai de três filhos, dois deles vivendo no exterior, ele é movido pelo desafio de cumprir a missão que lhe foi entregue. Entre avanços estratégicos e recuos inevitáveis, seu maior mérito é saber sempre como virar a página:

— Sorrir é um negócio interessantíssimo. A todo momento, digo aos meus filhos que os amo. E assim vou vivendo.

Fonte: Jornal oglobo.